Editorial da edição 235 do Jornal do Comércio, circulando
Você já tem candidato a presidente?
Eu não tenho.
Claro que se trata de uma provocação
ao leitor, que gostando ou não de política, será intimado a comparecer à urna
em outubro do ano que vem para votar para deputado estadual, para deputado
federal, senador, governador e presidente da República. Será intimado. É isso
mesmo que você leu, porque, no Brasil, mais do que um direito do cidadão, votar
é obrigatório.
O País está virado de cabeça para
baixo, tentando encontrar seu rumo para voltar à normalidade, para ter uma
economia com estabilidade, para ter representantes políticos mais confiáveis.
Mas, isso não se consegue da noite para o dia. É como se construía uma pirâmide
na antiguidade, obras que levavam decênios para ficar prontas.
A nossa pirâmide social está toda
corrompida, da base ao topo. O jeitinho brasileiro virou sinônimo de coisa
ruim, de corrupção, de passar a perna no outro, de roubar o quanto puder
enquanto estiver ocupando algum cargo público no qual possa se locupletar, de
corromper o agente de trânsito que flagra com documento do veículo e a CNH
vencidos, de quem rouba energia e rouba qualquer coisa se tiver oportunidade.
A ONU publicou um relatório em 2008,
baseado em observações feitas desde de 2001, no qual o Brasil foi classificado
como um país, corrupto, violento e racista. Com base nesse relatório, o assunto
foi discutido na assembleia geral das Nações Unidas, ocasião em que nosso país
teve que dar muitas explicações.
Quando eu afirmo que a pirâmide
social está toda corrompida, tomo por base o que ouço e testemunho desde que o
país foi redemocratizado a partir da eleição indireta pelo colégio eleitoral
composto pelos integrantes do Congresso Nacional, que elegeu o saudoso Tancredo
Neves, que não chegou sequer a tomar posse. Entra eleição, sai eleição, e a
ladainha é a mesma: precisamos trocar esses políticos, porque são todos
safados.
Primeiro, nem todos os políticos são
safados; tem muita gente boa em todos os níveis de poder. O problema é que a
banda podre ganha destaque, porque quando os caras metem a mão, roubam sem dó,
deixando crianças sem merenda escolar, doentes sem assistência médica e sem
remédios e tantos outros problemas causados pela corrupção. E o pior é que os
Renan, Geddel, Genuíno, Dirceu, Lula, Sarney, Maluf e uma carrada de outros do
mesmo naipe sobream-se mais do que a maioria dos homens de bem que são eleitos
pelo povo brasileiro.
Somos um povo trabalhador,
escorchado, mal remunerado em sua maioria, vilipendiado por nossos governantes,
mas, que só sabe reclamar nas rodadas de mesas de bar, dentro de casa, ou no
WhatsApp. E se cada povo tem o governo que merece, pela nossa moleza, pela
falta de capacidade de reagir, os bons terminam sendo governados por muita
gente má. E ainda tem muita gente que diz que não gosta de política, sem pensar
que a política está presente na vida da gente a todo instante. Aí eu lembro do
que escreveu Platão sobre isso: “A punição que
os bons sofrem, quando se recusam a agir, é viver sob o governo dos maus.”
Você já tem candidato a presidente?
Eu não tenho candidato a deputado estadual, nem a deputado federal, nem a
senador, muito menos a governador e a presidente. Tenho lá minha simpatia por
um possível candidato a presidente, que mesmo que tenha sua candidatura
confirmada, provavelmente não ganhará, porque é um político contra o qual não
pesam acusações de prática de corrupção. Já vou avisando que não é, nem Lula,
nem Bolsonaro. No restante vou esperar até os 49 minutos do segundo tempo.
Precisamos repensar muitos dos nossos conceitos, a começar pela maneira
como estamos educando os nossos filhos. Os meus, assim como eu, que fui criado
no meio de quem gostava e vivia a política, cresceram convivendo com essa
matéria. Antes de querer ter filhos “doutores”, como quase todo mundo que
termina o ensino superior quer ser chamado no Brasil, minha primeira
preocupação foi preparar bons cidadãos, pessoas que gostem da política saudável,
pessoas éticas, porque o resto virá como acréscimo e como prêmio para quem fez
o dever de casa bem feito. ( Jota Parente)