quinta-feira, setembro 05, 2019

Expedição ao Fim do Mundo: O Japonês Que Anda Pelo Mundo E Só Fala Sua Língua e O Dia Em Que Fui Multado


 O dia 3 de dezembro amanheceu com Sol forte, mas, como sempre acontece em cidades localizadas a mais de 51 graus ao sul do Equador, o frio predominava em Rio Gallegos marcando o termômetro 8 graus na hora da saída, pois, embora fosse o período da estação quente naquela região, uma frente fria que estava chegando fez a temperatura cair.
          Aquele foi o dia que eu mais andei em toda a viagem, dia em que extrapolei todas as medidas do bom senso. Na menos do que 1.154 quilômetros percorridos até meia-noite e meia do dia 4, sob um frio que me incomodou demais.
          Quando eu ainda estava indo para Ushuaia, sempre que parava em um posto para abastecer, ia até a loja de conveniência para comer alguma coisa. Aproveitava para conversar com os argentinos, que invariavelmente perguntavam de onde eu era.
          Numa dessas paradas um argentino me disse que havia passado um japonês que era muito mais louco do que eu, porque andava puxando um carrinho com rodas de bicicleta enfeitado com bandeiras de países e com suas coisas, como uma barraca de acampar e suas roupas.        
          Passava de meio-dia. Sozinho na estrada, naquele mundão deserto de meu Deus, a 120 km por hora eu avistei algo que chamou minha atenção. Passei do ponto, precisando fazer a volta para ver se era o que eu estava pensando. E era. Era o japonês Sokishi Takashita.
          Tive certeza que aquela seria uma das reportagens mais importantes de toda minha vida. Um homem que já tinha completado 70 anos, andando a pé, havia percorrido mais de 40 mil quilômetros pelo mundo afora em dez anos de caminhada pelas estradas da vida.
          Bom dia, disse eu em Inglês, certo que nos comunicaríamos. Ele fez uma mesura comum aos japoneses e disse: ‘japon’. Tentei em Espanhol e ele, de novo: ‘japon’. Entendi que minha grande reportagem tinha feito água.
          Desisti da conversa e decidi apelar para a mímica, que nunca foi o meu forte. Consegui, com muito esforço, entender que ele estava cansado e que pararia com as viagens. Fiz umas fotos e continuei.
          Depois que passei da cidade onde caí, Caleta Olívia, quando o relógio passava das quatro da tarde, olhei o mapa no GPS e por ser tão cedo, uma vez que o Sol só se poria depois das nove e meia da noite, achei que daria para dormir em Trelew, a cidade do maior dinossauro do mundo. Calculei mal, pois, parei muito além do horário razoável, 30 minutos depois de meia-noite, enfrentei muito frio e tive dificuldades para pilotar.
          A dificuldade na pilotagem residia no fato de que eu não podia andar a 60 km por hora, porque do contrário não chegaria a lugar algum tão cedo, e pilotar acima de 60 km significava ter que abaixar a viseira do capacete, que era escura para proteger a vista da grande claridade do dia todo. Isso complicou e muito minha vida e causou um grande atraso na parada. E mesmo com algumas limitações que eu superei como deu, esse foi o dia que mais andei, percorrendo 1.154 km.
          Acordei às 09h30min do dia 4 sentindo um pouco o excesso de ter pilotado por dezesseis horas e meia no dia anterior, com rápidas paradas para abastecer e me alimentar. Foi um exagero que eu não precisava ter cometido, pois a viagem estava sob controle no que dizia respeito ao dia da chegada, que precisava ser até o dia 19 de dezembro, porque eu tinha compromisso marcado para cumprir no dia 20. Mas, havia tempo de sobra.
          Quarta-feira, 5 de dezembro. A viagem rendeu pouco porque saí bem mais tarde que o horário de costume e parei mais cedo. Ainda enfrentando o frio, mesmo que menos intenso, resolvi descansar na pequena cidade de Médanos, antes de Bahia Blanca.
E que hotel legal o que eu pernoitei nessa cidade que parece mais uma vila. Afastado da rodovia, quartos amplos, e com o Peso Argentino a 10 por 1 em relação ao Real, o preço que era pra lá de camarada, coube no meu bolso com tranquilidade. Um casal de idosos é dono do estabelecimento, que segundo me informaram, recebem bastante brasileiros.
Tomei café, e às sete e meia já estava na estrada rumo ao Norte da Argentina. Sempre para o Norte, rumei para Rufino. Parei porque estava cansado da extravagância da noite anterior, sem conseguir avançar muito. Foram apenas 577 km percorridos, o que é pouco para uma jornada tão longa.
Rufino é considerado um município de segunda categoria. Na Argentina há esse tipo de divisão, de acordo com a importância de cada município. Embora fundado em 1889, tem uma população muito pequena de 18.980 habitantes. Mas, aquela cidade pequenina foi um dos pontos marcantes de minha viagem por conta de algumas peculiaridades.
Fundada por dois irmãos, Gerônimo e Francisco Rufino, é muito bem cuidada, tendo uma praça central de dar inveja a muitas cidades brasileiras de porte médio. Essa cidade minúscula tem história no futebol argentino, pois, revelou para o River Plate, o atacante Bernabé Ferreyra, conhecido como “Mortero” por seu chute forte, além de seu enorme talento; o goleiro Amadeo Carrizo, considerado um dos melhores do mundo quando jogava, também no River, e Ernesto Mastrángelo, que foi ídolo e é lembrado até hoje pela torcida do Boca Juniors.
A igreja católica de Rufino é outro ponto que diferencia o lugar de outros municípios por sua história singular. Ermínia Percorini Rufino, viúva de Francisco Rufino, após a morte do marido mandou construir com recursos próprios o bonito templo, ornado com vitrais. Isso aconteceu no ano de 1914.
De Rufino a Uruguaiana a distância é de 835 km. Eu precisava percorrer esses quilômetros todos porque queria voltar ao solo pátrio naquele mesmo dia 6 de dezembro. Para isso, teria que sair cedo para viajar somente de dia. Às 06h30min já estava na estrada. Nem esperei o café da manhã do hotel.
Guanacos aos montes, belos, mas, perigosos na estrada
Aquele foi um dia atípico, diferente mesmo, no qual enfrentei uma situação nova. Pela primeira vez em todas as minhas expedições, nos mais de 54 mil km percorridos eu me vi em apuros diante de um agente da Polícia Caminera, a Polícia Rodoviária argentina, bem conhecida dos viajantes brasileiros por gostar de propinas. Eu e o Jadir fomos abordados quando estamos para sair da Argentina. Os caras queriam dinheiro que nós não demos. Mas, nesse caso foi diferente, porque o agente era um homem correto.
Quando eu cheguei a Santana do Livramento, na fronteira do Brasil com o Uruguai, cuidei de comprar o seguro Carta Verde, que é exigido nos países do Mercosul. Fiz tudo certo para não ter problemas. Porém, o papel desapareceu do meio dos documentos que eu tinha sempre à mão, que eram o passaporte e o documento da moto. Azar meu!
Passaporte, documento da moto e a Carta Verde, pediu o agente, com cara de poucos amigos. Tirei os documentos do bolso da jaqueta, certo de que a bendita Carta Verde estava lá. Mas, não estava.
“O senhor está multado em 2.800 pesos argentinos (cerca de 280 reais). A moto está retida até que o pagamento seja feito. Pode pagar aqui mesmo. Se não quiser pagar aqui, pode ir até a cidade mais próxima, que fica a 50 km daqui”. Aí eu pensei: esse cara quer é o meu dinheiro. Porém, não era isso. Mesmo no meio do nada, havia um posto de serviço muito bem equipado no qual eu fiz o pagamento com cartão de crédito, recebendo o comprovante do pagamento. Nesse particular eles estão à nossa frente.
Depois de pagar a multa segui em frente, tendo sido parado mais uma vez para pedirem a bendita Carta Verde. Como eu estava com o comprovante do pagamento da multa, ele valeu como salvo conduto e eu pude seguir em frente sem atropelos.
Isso tudo aconteceu pouco mais de uma hora depois que eu passei pela bonita e grande cidade de Rosário, que tem 1,3 milhão de habitantes, situada na margem direita do Rio Paraná. Ao passar pela cidade, cruzei uma ponte muito bonita com 2,5 km de extensão. Por muitas horas viaja-se com a companhia da bela passagem do vale do Rio Paraná.
De Rufino a Uruguaiana não houve mais alterações e o trajeto foi quase sempre no sentido Nordeste. Às 17h25 do dia 6 de dezembro eu cheguei a Passo de los Libres, cidade fronteiriça, onde os trâmites de entrada foram muito rápidos. Uruguaiana, situada na margem direita do Rio Uruguai é a única cidade que se originou do movimento Farroupilha, a Guerra dos Farrapos. Fica situada no extremo Oeste do estado do Rio Grande do Sul, na fronteira com a Argentina.

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